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Costumes de rua


Eu costumo ser muito observadora dos costumes das pessoas. Gosto de olhar o que fazem, como fazem, etc. Posso analisar isso de forma errada, a final são as minhas percepções, mas fica registrado (ainda que por um curto tempo) na memória o que presenciei.

Bom, nessas andanças de vida, existem coisas que são muito diferentes entre MEUS costumes e os costumes dos chilenos (generalizando).
Por exemplo, imaginem a situação em que estou na rua, apressada, procurando um endereço que não sei bem onde está.

MODO LIGIA DE AGIR:
*da uma olhadinha pra primeira pessoa que passe e abordar:
- Oi, posso te fazer uma pergunta?
- Sim.
- Onde fica a rua Merced com Mac Iver?
- blablablabla
- Ok, obrigada.


MODO CHILENO DE AGIR:
* da uma analisada completa na rua, olha desesperadamente sem saber a quem perguntar, procura uma barraquinha de revista ou doces.
- Oi
- Oi
- Bom dia.
- Bom dia.
- Como está?
- Bem, obrigado.
- Desculpa incomodar, mas posso te fazer uma pergunta?
- Anham.
- Sabe, é que eu estou atrasado porque vou para uma entrevista de trabalho. Eu estou sem trabalhar há um mês e preciso muito do emprego e agora consegui uma oportunidade.
- Anham
- Eu to um pouco perdido, não consigo achar a rua, voce pode me ajudar?
- Anham
- Aqui ta escrito Mac Iver com Merced. É isso mesmo?
- Anham
- Não sei bem se é para a direita ou esquerda essa rua.
- Pra direita
- Voce tem certeza que é pra la?
- Anham
- Pra lá né? (apontando)
- Anham
- Ah, muito obrigada, viu. Voce foi muito gentil. Que tenha um lindo dia e obrigada
- ok


Bom, deve ser por isso que as pessoas são muito secas pra responder quando a gente pergunta coisas nas ruas de Santiago... tem que ter muito amor no coração mesmo...

Convivencia

Conviver com outras pessoas não é fácil, tenho que confessar. Se com a família a coisa já não era tão tranqüila, imagina viver numa casa com várias pessoas desconhecidas. Eu sequer consigo confiar na maioria delas. E a dificuldade não é somente no relacionamento interpessoal, que no meu caso já fica mais difícil porque eu tenho a mania de querer que as pessoas sejam perfeitas, enquanto eu mesma não o sou.

Mas, além disso, vem também a desorganização, a sujeira, o barulho, a infidelidade, os maus costumes, os roubos, o egoísmo, a falta de caráter, uff.

Exemplo 1 – cada um tem seu dia para usar a maquina de lavar roupas, mas nem todos respeitam essa ordem. Às vezes você quer lavar sua roupa e não pode porque tem outras lá. Passei a fazer o mesmo.

Exemplo 2 – as roupas desaparecem enquanto estão secando. Já tive uma meia-calça desaparecida e agora uma blusa segunda-pele. A idéia inicial era que alguma das meninas tirava do varal por engano, mas a meia, por exemplo, nunca foi devolvida. Haja tempo para enganar-se com a roupa de outra pessoa né. Só não entendo porque roubam minhas roupas se elas certamente não cabem nas fofurinhas de chilenas que vivem por aqui. Deve ser por isso que não me devolvem, já que depois de uma tentativa de uso a roupa ficaria fora dos padrões para mim. Isso já está me irritando.

Exemplo 3 – jovens que nunca estiveram fora de casa ou que não tiveram mães mais preocupadas com sua evolução enquanto ser humano não têm o costume de saber fazer as coisas, e eles se esquecem que não possuem mais empregadas também. Então você encontra louça suja na cozinha, comida pelo chão, luzes acendidas durante o dia, calefator sem uso gastando gás, entre outras.

Fora o que acontece e incomoda diretamente a mim (o caso da sujeira é o que mais me deixa com os nervos a flor da pele), existem os outros casos em que incomodam aos outros, como barulhos , roubos de comida (comigo nunca aconteceu).

Nessas horas eu fico impressionada e sempre me encontro lembrando velhos tempos. Porque eu reclamava tanto da insistência que minha mãe, desde sempre, tinha em querer que eu e meu irmão aprendêssemos a cozinhar, lavar, que fossemos organizados, honestos, econômicos, e agora noto (e agradeço muito a ela) o quanto tudo isso é essencial na vida.

Ela tinha total razão em querer me ensinar a fazer arroz, feijão, carne. Ainda que tenha me ensinado a fazer comidas básicas, eu acabei aprendendo a cozinhar. Vejo as meninas aqui, elas compram macarrão e salsicha todos os meses e não sabem fazer outra coisa. Não sei se passam fome, devem comer pela rua também, mas não se alimentam bem. Nem um tomate, uma batata, algo que complemente, nem isso eu vejo na dispensa delas.

Mamãe (leia-se: Dona Gê) também me mostrou o quanto é importante ter ambientes limpos e organizados. Sei que dentro da minha casa, com meus pais, eu não respeitava muito essas regras, mas as aprendi, ainda que não praticasse muito antes (risos). Aqui na república (como chamamos casas para estudantes), não vejo muito isso. Eles não se importam se a mesa está toda suja, simplesmente sentam, comem e levantam deixando-a ainda mais suja. Não se importam se o chão da cozinha está cheio de restos de comida ou sujeira, entram e saem sem limpar. Eu não consigo fazer isso. A cozinha acabou se transformando em minha área, ali eu meto bronca em qualquer um que demonstre maus costumes. Estou sempre tentando deixá-la limpa, cheirando bem. Não da pra cozinhar e comer num lugar todo sujo como eles fazem. Não consigo.

Por essa e por outras que agradeço a Dona Gê pela insistência em me ensinar a ser alguém. Por ter tido paciência em me mostrar os caminhos mais amenos e socialmente aceitáveis. Num momento como agora eu sei me comportar como ser humano evoluído e não como animal. São coisas que adquirimos em casa, de nada vale dizer vinte vezes para quem não tem bons costumes, depois de grande, como eles, só vão mudar se realmente quiserem, e não creio que essa seja a intenção.

Chilenos e suas estranhezas


As pessoas…
Ahhh as pessoas... essa categoria aqui são um pouco estranhas. Quando estão fora de lojas e pontos comerciais costumam ser mais gentis e atenciosas, mas se você quer ser atendido por alguém se prepare, acostume-se com frieza e exatidão nos dados.

Por aqui não tem esse jeitinho brasileiro, essa alegria pelo simples ser, essa maleabilidade, malandragem, diversão. Se você entrar numa loja para comprar uma televisão e o preço é mais alto que na loja ao lado, o normal no Brasil seria você dizer para o vendedor: “– Poh, aqui do lado ta mais barato!”, e se você ainda estivesse no Brasil, o cara te responderia: “– Vamos ver o que podemos fazer”. Aqui no Chile aconselho que você não diga tal “despautério” porque o cara não vai respirar muito pra te responder: “– OK, compre lá então”, e dar as costas e sair andando. Você no máximo vai ficar com cara de bobo olhando pra televisão.

Também esqueça a frase: “Tem desconto?”. Aqui não existe desconto, essa palavra não foi adicionada no vocabulário deles. Fora das grandes promoções, arremates, fim de estoque, etc, você não vai encontrar quase ninguém disposto a tirar nem um peso do valor do produto. O que pode ser visto por um lado bom, por que aqui não se tem o costume de colocar o preço do produto muito acima do que realmente vale só porque já se sabe que o cliente vai chorar por um descontinho. E essa é uma dica muito valiosa, eles riem muito de brasileiro porque temos essa mania de pedir desconto pra tudo. Chileno acha absurdo fazermos isso, é como se fosse falta respeito com a loja.

Motorista de ônibus público também é outro bichinho complicado. Não arrisque pedir para eles pararem fora do ponto correto e não perca seu tempo correndo para subir no ônibus, porque eles, em geral, tão pouco importando para isso. Mas eles não são de todos ruins, se por acaso você não tem credito suficiente no seu cartão para pagar a passagem, pode pedir-lhes que deixem você na próxima estação de metrô, onde se pode fazer a recarga, ao menos isso eles costumam permitir.

Na categoria estranheza também encontram-se qualquer atendente, não importa de que, escola, loja, boteco, serviço publico. Se você perguntar para qualquer um quanto é dois mais dois, pode ter a certeza de que ele vai responder QUATRO e nem uma virgula a mais. Não se passa informação adicional ao que se está questionando. É isso o que você quer saber? É isso que vão lhe responder, ele nunca vai te explicar o porquê de dois mais dois ser quatro ou que, de repente, você pode chegar ao seis somando outros dois, a menos que você pergunte literalmente. A informação é precisa e concisa.

De qualquer forma, eles são amáveis nas ruas. Se precisar de informação, não exite em perguntar. Há quem diga o contrario quem afirme categoricamente que os chilenos são todos mal amados, mas se você souber perguntar e se fazer entender, eles com certeza te ajudarão. Nada tão diferente do que passa no Brasil.

A diferença é que temos muito mais sangue louco no corpo que eles. Somos mais “porra loca”. Eu acho...

Pessoas e língua

Os chilenos, de um modo geral, são agradáveis, calmos e receptivos. Creio que estejam adaptados ao turismo e, por isso, tratam bem a todos que visitam o país. Conversei com muitos deles e todos foram educados e atenciosos. Não vi brigas nas ruas, não vi pessoas pedindo esmola e não fui mal tratada (tudo com raras excessões, claro).
Como é de se esperar, eles falam muito rápido para quem não tem domínio total de língua espanhola, porém sempre que pedi para falarem mais devagar, eles o fizeram e sempre houve um esforço imenso das duas partes para se fazer entender. Não tive problemas em me comunicar com eles. Eles adoram brasileiros (e odeiam argentinos) e ficam entusiasmados em saber sobre o Brasil. Como aqui, há muitas gírias e eu nem sempre conseguia entender o que significavam, mesmo que a pessoa quase desenhasse para mim. Por exemplo, no final de todas as frases eles falam: "Cachai?", que significa "entendeu?", até eu entender que era "entendeu", demorou heim.
O hotel onde fiquei era bem no centro e muito próximo de uma escola, então eu via os jovens passarem de um lado para o outro o tempo todo. Os chilenos mais novos, adolescentes, são muito alegres, estão sempre em grupos, rindo, falando alto e fazendo brincadeiras. Nada tão diferente daqui. Notei que 90% se veste como os "emos" brasileiros. Sempre com os cabelos alinhadíssimos, roupas despojadas, maquiagem, etc.
Por falar em cabelo, eles são criativos ao máximo com os cabelos. Nos salões de beleza sempre se vê novidades, apliques coloridos, as atendentes com cabelos arrepiados, cortados fora de alinhamento, etc. É bem interessante observar os cortes de cabelos. Ah, eles costumam ter os cabelos bem escuros, quase negros.
Já os mais velhos, com mais de 25 anos, são estranhos. Para os padrões de beleza brasileiros eu diria que eles não chegam a ser bonitos (claro que vi alguns chilenos e chilenas de parar o trânsito, mas eram raros). Eles são mais fortes, gordinhos mesmo, não muito altos, costumam ter o rosto mais largo que no Brasil e quase sempre brancos. Talvez por não estarmos no verão eles estavam desbotados, mas há também os mais morenos com cara de latino americano mesmo.
As mulheres mais velhas costumam utilizar maquiagem carregada durante o dia. Com a sombra verde, lápis azul e baton rosa, por exemplo. As roupas também não tendem ser tão atraentes. Talvez pelo frio ou por serem muito religiosas, estão sempre cobertas, mas como soube que usar mini-saia lá é o "Ó do borogodó" (leiam isso quando eu falar sobre os bares), creio que não tenham muito o costume de usar poucos trajes mesmo.

Os homens (e que homens!!) são gentis. Abrem a porta do carro para você, oferecem-se para pagar a conta, te respeitam, dão abraços, se beijam no rosto para cumprimentar (homem com homem), puxam a cadeira para você sentar, param para você atravessar a rua, te acompanham para ensinar um caminho, estão sempre cheirosos, arrumados, bem vestidos! São verdadeiros cavalheiros! Encantadores! Todo brasileiro deveria passar uma temporada no Chile para aprender determinadas coisas... Eles podem não ser mais bonitos do que os brasileiros, mas me fizeram suspirar por tanto romantismo no ar.
Bom, fora todos estes detalhes, o povo chileno gosta muito de aprender palavras em português e eles conhecem diversas, principalmente os palavrões e modismo. Um dos guias turísticos, Rodrigo, não parava de falar: "Show de bola", e sofreu para tentar aprender comigo a palavra "FORÃO", eles não conseguem falar nada com "ão", sempre sai "on" (foron), e eu me diverti muito tentando ensiná-lo a falar corretamente.
O meu nome ninguém conseguiu pronunciar como se deve também. Me chamaram de várias coisas, menos de Lígia: lírria, lia, li, linda (ui), lilica, lidia...

Foto 1: Senhores na Plaza de las Armas jogando, advinha?, xadrex
Foto 2: Estudante chilena saindo da escola
Foto 3: Eu e o recepcionista do cassino
Foto 4: Eu e a divertidíssima guia turística, Lorena
Foto 5: Eu e o professor de ski, Roberto